Helena

Relato concedido em 06 de Março de 2010

Como a luta pelo direito a moradia iniciou na sua vida? Como o MDDF passou a fazer parte da sua história?

Eu sou Helena venho do estado do Mato Grosso do Sul, vim pra são Paulo faz 30 anos, que eu vim pra morar na Gregório de Matos. Sou mãe de seis filhos. Eu participava só da igreja – dos encontros, da pastoral da moradia junto com a igreja católica. Então fui convidada pela paróquia  da Guaraciaba pra participar do MDDF. Mas no começo eu não queria por causa das crianças pequenas, mas me chamaram tanto que eu entrei no movimento pela moradia e no MDDF. Me encaixei na primeira coordenação do MDDF, participava das assembléias das comunidades, conversava com as lideranças, rodava comunidades.tinha os problemas – tanto na minha região como nas outras próximas – reuníamos todos, íamos juntos na prefeitura, no Semasa. Na época do Brandão tínhamos um sério problema de água e mobilizamos todo mundo da minha região – dez favelas e a Gregório era parte. Fazíamos reunião na igreja, traçávamos as diretrizes e íamos cobrar na prefeitura. Cuidava das crianças, deixava a comida pronta e ia participar. O pessoal da pastoral da moradia dava assistência pra gente. Ia pra manifestações na rua – se fosse ver, eu não ia ter tempo mas eu fazia o tempo dar. No início não queria participar por que achava que dava muito trabalho mas decidi ir, totalmente voluntária, a gente acreditava mesmo. Participamos da história da nossa região, da nossa cidade. Graças ao MDDF e a pastoral, comecei a aprender a conversar com esse povo da política, a participar da vida política da cidade. Lá onde eu morava antes, em Dourados, não tinha participação política na comunidade. Vim aprender isso aqui porque eu não sabia nem o que era uma fábrica, nunca tinha ido pra escola, não aprendi a ler e escrever mas aprendi a desenhar meu nome, aprendi toda essa história de vida e como participar aqui em santo André.

Na primeira organização do MDDF, fui duas vezes pra Brasília. Nas assembléias dependia da situação – tinha mais de cem, duzentas pessoas quando tinha problema de despejo, de ameaça agora quando era pra conversar pra discutir interesse da comunidade, o povo sempre ia mais devagar. No primeiro ano do Celso em que começou o “pré-urb”, o MDDF participou disso – fizeram vielas, muro de arrimo…

Tivemos muitas conquistas em conjunto – não foi só do MDDF, só dos políticos, só da igreja. Fomos juntos. Antes do Celso Daniel só tínhamos derrotas, despejos, sofrimento, polícia em cima da comunidade. Quando a gente fez nossa história de luta, a gente conquistou uma cidadania, uma participação mais próxima do poder público – aí a gente conseguiu fazer parte dessa cidade. Então foi uma coisa boa que a gente não tinha antigamente – a gente antes só tinha polícia pra bater na gente, a gente precisava ter coragem de lutar. Dentro da própria comunidade da gente – as casinhas populares, tudo que foi feito, tudo foi conquista que vocês estão vendo tudo tem um pedacinho da luta do MDDF e das lideranças de cada comunidade. Antes a gente não tinha como entrar na comunidade vizinha. Eu morava dentro da Gregório e tinha como fazer uma assembléia e chamar todos moradores pra colocar as coisas boas e as coisas ruins que estavam acontecendo e como podíamos lutar. Na outra comunidade eu tinha que conhecer e conversar com essa liderança, convencer essa liderança – que era meu papel – a fazermos uma assembléia em conjunto, pra tomarmos decisão em conjunto, não individual. Eu representava minha comunidade e além disso conversava com líderes de outras comunidades pra lutarmos juntos. Nós não podemos ter medo – o povo dizia que tinha medo da polícia mas não podemos ter medo, porque a gente tem que lutar pelos nossos direitos de moradia, nossa água, nossa luz, pra que a gente possa receber visita na nossa cidade com cidadania. Sem lutar nós não temos nada, nós temos que participar. Dentro dessas assembléias sempre preguei uma coisa mais geral – não é só Santo André, também é Brasil.

Como você vê o futuro do MDDF? Como compreende a continuidade do movimento?

Precisamos lutar e escolher pessoas que conversem  – sem isso nós nunca íamos ter uma urbanização, nunca íamos ter nossa moradia. Ainda temos muita coisa pra conquistar. Nós temos comunidades construídas mas não temos a posse da terra – esse é o foco do MDDF. O documento pra dizer isso é meu, paguei por isso e conquiste e tenho o documento, a escritura ou a posse. Esse é o motivo pra eu não desistir dessa luta, desse movimento. A nossa luta tem que continuar.

Eu acho que hoje boa parte do povo acha que já conquistou o que precisava de moradia – algumas pessoas não dão importância pra continuidade pra luta. O povo ainda não conquistou  o que precisa conquistar moradia, de água luz esgoto asfalto a posse da terra.

Hoje não tem mais a repressão do governo – despejo, polícia como era nos anos 80. Isso tá diferente. Mas a conquista não terminou.

Dentro de tudo isso que aconteceu, hoje tem poucas pessoas se reunindo. Nos anos 80 tinha várias pessoas se reunindo, se mobilizando. Hoje o povo só se acode quando a corda começa a arrebentar. Quando a gente que tá na luta começa a explicar e as pessoas falam “mas isso já faz 10, 20 anos, não posso perder meu tempo…” . Temos ainda a resposta no movimento, mas são poucos.

Ainda precisamos fazer uma grande mudança pra chamar os jovens, pra dar continuidade pra esse trabalho que estamos fazendo. Enquanto a gente está viva, a gente tem que acreditar. Hoje quem não tem emprego, não tem salário, tem dificuldade de bancar uma participação. Mas acho que nossa esperança nunca pode morrer. O jovem tem que saber que é uma luta muito dura pra tocar – o jovem que se prepare porque é um desafio.

Temos essa história todinha, tem coisa tão rica que tem que ficar registrada.

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